sábado, 3 de março de 2012

Linguística Histórica

Linguística Histórica
O passado das línguas e as línguas do passado
Para conhecer uma língua profundamente, não se pode negligenciar sua história. É aí que entra em cena a Linguística Histórica, ramo que focaliza o passado das línguas e, também, as línguas do passado.
Por Francisco Edmar Cialdine Arruda*
ALGUNS PERSONAGENS IMPORTANTES
Dentre os vários nomes que permeiam a Linguística Histórica podemos destacar alguns que direta ou indiretamente contribuíram para seu surgimento e desenvolvimento:
Jean François Champollion
Dedicou duas décadas de estudos para decifrar os hieróglifos contidos na famosa "Pedra de Roseta", obtendo sucesso em 1822. Com isso, deu um grande salto no desenvolvimento da Egiptologia, ciência que estuda o Egito antigo.

William Jones Juiz
inglês residente na Índia em 1786 que percebeu a existência de semelhanças linguísticas entre o sânscrito, língua sagrada da região na qual vários documentos estavam escritos, o latim, o grego clássico, o persa e o gótico, uma antiga língua germânica. Chamou a atenção dos estudiosos ao declarar: "A língua sânscrita, seja qual for sua antiguidade, possui uma estrutura admirável; mais perfeita que a grega, mais rica que a latina, e superior a ambas em seu refinamento; entretanto, mantém com ambas uma afinidade, tanto de raízes dos verbos quanto nas formas gramaticais, maior do que poderia produzir-se por um mero acaso, tão grande que nenhum filólogo poderia estudá-las sem acreditar que as três tenham advindo de uma fonte comum que, talvez, não mais exista. Há uma razão similar, embora não tão convincente, para se supor que tanto o gótico quanto o céltico, embora miscigenados a um idioma diferente, tenham tido a mesma origem que o sânscrito. Pode-se acrescentar à mesma família o antigo persa." Surgiu, assim a hipótese da língua indo-europeia.
Jacob Grimm
Ficou conhecido por reunir, juntamente com o irmão Wilhelm, vários contos de fadas, os contos de Grimm. Em 1848, Jacob se aprofundou no estudo da história da língua alemã e percebeu a relação existente entre alguns fonemas do latim, grego clássico, gótico, eslavo e sânscrito. Com isso e outros estudos equivalentes tornou-se o pai da Germanística, ciência que estuda as línguas germânicas antigas e modernas. Seus estudos vieram a reforçar a possibilidade da existência do indo-europeu.
 Constantemente temos visto várias matérias relacionadas com a história da Língua Portuguesa, as transformações que ela sofreu durante sua formação e mesmo as línguas que influenciaram sua estrutura. Mas como os estudos linguísticos se comportam diante dessas questões? Eis, então, que entra em cena a Linguística Histórica, um ramo antigo dos estudos da linguagem que dominou o século XIX e que, hoje, vem retornando aos círculos de pesquisas com uma nova roupagem. Vejamos, agora, um pouco sobre esses estudos por meio de alguns conceitos básicos e sua importância para uma formação sólida do profissional da linguagem.
Conceitos básicos
Antes de qualquer coisa, é necessário deixar claro alguns conceitos. Primeiramente, a Linguística Histórica difere da História da Linguística. Esta é uma disciplina que focaliza as ideias e teorias linguísticas em uma perspectiva cronológica, isto é, como a ciência da linguagem se desenvolveu desde seus primórdios.
Por outro lado, a Linguística Histórica se concentra no estudo do desenvolvimento histórico de uma língua: como ela surgiu, quais línguas influenciaram sua estrutura e uso, o porquê de suas mudanças no decorrer do tempo etc. Ao mesmo tempo, a Linguística Histórica se preocupa com a reconstrução de línguas antigas, sejam elas mortas ou extintas. Nesse aspecto, ela pode se confundir com a Filologia. Esta também trabalha com a história de uma língua, porém, seu método difere do método da linguística histórica por seu objeto ser documentos antigos. A partir de tais textos, a Filologia estuda uma comunidade Linguística antiga: sua língua, sua literatura, sua cultura e sua sociedade. Assim sendo, ela é mais ampla que a Linguística Histórica.
História externa e interna
É importante deixar claro o que é "história" quando remetemos à Linguística Histórica. A história de uma língua pode ser dividida em história externa e interna. A primeira trata dos aspectos extralinguísticos, isto é, fatores sociais e culturais que influenciaram no desenvolvimento de uma língua. Exemplificando: a língua galega, falada no noroeste da Espanha, passou por uma fase de forte preconceito na ditadura de Franco (ainda que ele fosse galego). Apenas com o fim da ditadura ela pôde ser oficializada como idioma da região. Detalhe que o espanhol, na verdade, era apenas uma das várias línguas da Espanha. As tentativas de fazer com que a língua galega e as demais línguas existentes no país (basco, catalão etc.) fossem extintas e a consequente hegemonia do espanhol "castelhano" são explicáveis somente por questões políticas.
Já a história interna trata da estrutura da língua e suas modificações no decorrer do tempo nos diversos níveis linguísticos (Fonética, Morfologia, Sintaxe etc.). Um clássico exemplo são os metaplasmos (saiba mais no boxe), transformações fonéticas que as palavras sofrem no decorrer do tempo, segundo as chamadas leis fonéticas. Um exemplo: uma das leis fonéticas é a chamada "lei do menor esforço" ou "lei da simplificação articulatória". Essa lei prega que sempre quando falamos procuramos deixar a língua mais fácil de ser pronunciada para o aparelho fonador. Ela vai ao encontro da tendência da Língua Portuguesa de evitar palavras proparoxítonas. Tudo isso explica a transformação da palavra latina "óculu" (proparoxítona) em "olho" (paroxítona). Observe o processo: óculu > oclu > olho. Dentre as transformações nesse processo temos a perda da vogal "-u-" e a transformação do encontro "-cl-" em "-lh-".
 Diacronia e sincronias antigas
Além de estudar a história de uma língua em seus mais diversos aspectos, a Linguística Histórica se preocupa ainda em reconstruir línguas antigas. Nesse caso, seus estudos deixam de ser puramente diacrônicos e passam a ser, também, sincrônicos. No caso de línguas em que, atualmente, ainda possuímos registros históricos, esses estudos são relativamente simples. A análise descritiva é feita com base no material existente. Às vezes, podemos até encontrar gramáticas antigas produzidas na época em que tais línguas eram utilizadas. É o caso, por exemplo, do latim clássico, cuja literatura que temos hoje inclui gramáticas e manuais da época.
Por outro lado, a situação do latim vulgar é um pouco mais complexa. Essa era uma variação essencialmente falada, mas que pôde ser reconstruída por meio dos poucos registros existentes e também a comparação entre as línguas neolatinas, originadas a partir do latim vulgar. Por meio de semelhanças e divergências entre elas podemos complementar as lacunas que os textos possam vir a deixar. Quando falamos dos metaplasmos, por exemplo, sempre tomamos como base para estudo as palavras usadas no latim vulgar, e não no latim clássico (ocullu é a forma vulgar de ocullus).
Situação mais complicada, porém, é a das línguas extintas, línguas de que não possuímos registros, como no caso do indo-europeu. E como podemos ter certeza de que tais línguas existiram se não há nenhum registro delas? De fato, não há como ter certeza. No caso do indo-europeu, por exemplo, ela é uma língua hipotética que foi concebida no século XIX, no auge da Linguística Histórica, por Sir William James (leia mais sobre William James e outros nomes da Linguística Histórica no boxe "Alguns personagens importantes"). Claro que, como toda hipótese, há quem seja a favor e quem seja contra. No entanto, as contribuições que foram feitas nesse período foram importantes e, ainda hoje, a Linguística Histórica e seus métodos são utilizados quando o assunto são línguas antigas.
Línguas em contato
É importante, ainda, deixar claro, que as línguas se modificam por entrarem em contato umas com as outras. Hoje em dia, esse fenômeno é facilmente observável, basta vermos os estrangeirismos e empréstimos linguísticos em português oriundos de outras línguas. Assim sendo, de acordo com o tipo de relação existente entre as línguas, surgem os substratos, superestratos e adstratos. Vejamos com exemplos. Ao chegar à Península Ibérica, os romanos impuseram sua língua, o latim, aos povos dominados. Desse modo, a língua dos romanos dominou toda a região, favorecendo o superestrato latino do português. No entanto, quando os árabes invadiram a península séculos depois, sua língua não dominou a língua que lá existia (que já era um latim diferenciado), mas causou uma pequena influência - eis de onde surgiu o substrato árabe de nossa língua. Atualmente, o português sofre influência de várias línguas sem que haja uma relação de dominação. Tais línguas contribuem para ampliar o nosso léxico, são os adstratos linguísticos.
A Linguística Histórica é muito mais ampla que os conceitos aqui apresentados. Ela contribui para explicar vários fenômenos sociolinguísticos e também tem se servido de novas teorias linguísticas, como o Gerativismo e o Funcionalismo, para desenvolver seu campo de ação. Nosso objetivo aqui não foi esgotar o tema, mas chamar atenção para sua importância em uma formação sólida do profissional de línguas. É certo que é possível ser, por exemplo, um professor de português sem uma formação histórica (na verdade, é muito comum encontrarmos profissionais com essa visão fechada sobre o ensino de língua), mas também é certo que tal professor terá uma lacuna que o impedirá de se tornar um profissional pleno; afinal, muitos fatores tidos como irregularidades da língua possuem uma explicação histórica que poderá facilitar a aprendizagem de seu aluno. Desse modo, importante não deixarmos tal conhecimento histórico, o qual, inclusive, pode servir como tema de pesquisas com nossos alunos para eventos da escola como gincanas científicas.
 Sugerimos, por fim, a navegação pelo site www.filologia.org.br, do grupo de estudos filológicos da UFRJ, onde é possível ter acesso a inúmeras publicações sobre o tema.
* Professor da Universidade Regional do Cariri, mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual do Ceará e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Lexicografi a, Terminologia e Ensino (LETENS), atuando principalmente com os temas Terminologia, Lexicografi a, Surdez, Multimodalidade e Latim. Contato: ed0904@gmail.com
Bibliografia

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